Desde a noite anterior o negrume lhe cobria o coração. As lágrimas, quase insuficientes, soluçavam seu peito, e se perdiam em meio ao brilho da pele sob a madrugada. Perdida ela, a tristeza indecifrável, a mente calejada e sofrida, desistia já de entender a apatia. O único esforço, que para nada servia, era o de continuar acordada.
Queria jogar as mãos para o céu e indagar “Por que, Senhor? Por quê?”, sabia qual o problema era e este não se encontrava na literatura, como há pouco afirmara. Era a indolência, a indolência na qual seu amor se afogava lentamente. Ela sabia que o fim bem poderia estar próximo e que pouco adiantaria qualquer tentativa de reanimar a alma acamada. Mesmo que sua vivacidade retornasse, parecia-lhe que ao outro a calma bastava.
Bom, para ela não bastaria. Já jurara, sim, que um amor seguro e róseo mais valia que um amor assassino e carmim. Mas esta não viveria apenas de tons pastéis. Não, esta reivindicaria seu direito a um amor bélico e tumultuoso, um que a tomasse nos braços e a largasse na cama, que lhe jurasse amor eterno e batesse a porta com raiva ao sair. Ela queria tornar à inconsequência, todos os dias escrever, se perder, e dar-se à querência dos sentimentos instintivos sem pensar novamente.
Sabia, claro, entre suas entranhas, que estes desejos eram passageiros e somente ao abismo levariam. De que valeria se perder agora que estava se encontrando? Mas estaria mesmo se encontrando? Não teria ela, agora, mais perguntas do que nunca? Sim,era quase só o que possuía. Nunca estivera tão perdida e amedrontada quanto agora. Mas as dúvidas não se deviam a ele, do mesmo jeito que ele não a ajudava a respondê-las.
Então, ali se encontrava naquele final de tarde cinzento, sozinha com suas cobertas, suas palavras e seu cansaço. Será que era uma parte dela que morria? Não, para que essa morresse ele deveria ser deixado para trás, e a isso ela se recusava. Tornava a pensar se aquele amor valeria à pena. Tornava a responder que sua falta de lucidez nesses dias só levara a desentendimentos, tragédias e profundas tristezas.
Winola Weiss.